terça-feira, 8 de abril de 2008

(Discurso de Deus a Eva)



"... Eva, de repente, descobrindo uma bela cascata, resolveu tomar um banho de rio. A criação inteira veio então espiar aquela coisa linda que ninguém conhecia.E quando Eva saiu do banho, toda molhada, naquele mundo inaugural, naquela manhã primeval, estava realmente tão maravilhosa que os anjos, arcanjos e querubins, ao verem a primeira mulher nua sobre a Terra, não se contiveram, começaram a bater palmas e a gritar, entusiasmados: "O AUTOR! O AUTOR! O AUTOR!".

" P.S. - Este discurso do Todo-Poderoso está sendo divulgado pela primeira vez em todos os tempos, aqui neste livro. Nunca foi publicado antes, nem mesmo pelo seu órgão oficial, A BÍBLIA."



"Minha cara,

Eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz. "Ele" nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável. Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre. Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos a fora. Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensará que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho. Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor! Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.

Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito. Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem é um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.

Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimo! Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri! Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!"


Texto: Millôr Fernandes
recebido por e-mail da amiga Vitoria
Imagem ©Octavio Ocampo - Cara Pájaros

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Amor Líquido

Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos
Vivemos a cultura do pronto, do aluguel, do descartável. As relações humanas estão cada vez mais revogáveis.

Zygmunt Bauman é considerado hoje um dos sociólogos mais influentes do mundo. Professor emérito de sociologia na Universidade de Leeds, na Inglaterra, e na Universidade de Varsóvia, Polônia, seu livro mais recente é Amor líquido - Sobre a fragilidade das relações humanas, publicado pela Zahar, de onde tirei os conceitos e extraí citações para estas reflexões. A tese de Bauman é que vivemos em um mundo líquido, que detesta tudo o que é sólido e durável, tudo que não se ajusta ao uso instantâneo nem permite que se ponha fim ao esforço. O amor, nesse mundo líquido, é, portanto, amor líquido. A tirania do mercado explica em parte essa característica rarefeita de tudo.

Estamos na era do Homo consumens. O que caracteriza o consumismo não é acumular bens, mas usá-los e descartá-los em seguida, a fim de abrir espaço para outros bens e usos.

Estar excluído da sociedade de consumo equivale a ser um fracassado, um incompetente. Um consumidor falho fica se utilizando dos mesmos bens, e a utilização repetida o priva da possibilidade de sensações novas e inéditas. Isso o leva ao tédio e à frustração. Ser bem-sucedido, então, é conviver com novidades, variedades e rotatividade.

Daí surge a cultura do aluguel e do descartável (e, por isso mesmo, mais barato). Nessa sociedade líquida, você não compra - aluga. Comprar implica posse e permanência. Alugar representa rotatividade sem ônus.

O descartável pode ser facilmente substituído sem muito prejuízo: vale a relação custo-benefício, ou tempo de benefício. No mercado, tudo está ao alcance do cartão de crédito, e a distância entre o desejo e sua satisfação está cada vez mais curta. E, portanto, o descarte, cada vez mais rápido.

A experiência sexual e relacional segue o mesmo padrão e raciocínio. Afinal, seu parceiro pode abandonar você a qualquer momento, sem o seu consentimento.

Anthonny Giddens, outro célebre analista da chamada pós-modernidade, fala dos 'relacionamentos puros', onde as relações permanecem enquanto satisfazem as partes. São relacionamentos nos quais se entra apenas pelo que cada um pode ganhar e se permanece apenas enquanto ambas as partes imaginam que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem nas relações. Viver juntos é 'por causa de' e não 'a fim de'. Enquanto há razões, a parceria permanece.

Os parceiros já não se enxergam como construtores de si mesmos, um do outro e da própria parceria. Parcerias frouxas e eminentemente revogáveis substituíram o modelo da união pessoal 'até que a morte separe'.

Bauman chama isso de 'relacionamentos de bolso', que compara com vitamina C: em grandes doses podem causar náuseas e prejudicar a saúde. Por essa razão, a 'sociedade líquida' prefere os relacionamentos diluídos, para que possam ser aproveitados. Os compromissos intensos e de longo prazo são uma armadilha a ser evitada. O compromisso fecha a porta para novas possibilidades (quem sabe, até melhores). Mantenha sempre sua porta aberta, dizem os 'especialistas'.

Viver juntos foi substituído por ficar juntos. A convivência foi substituída pelos encontros episódicos. O casamento foi substituído pela sucessão de romances com sexo. O divórcio foi substituído pelos CSS - casais semi-separados. As amizades foram substituídas pelas salas de chat e as redes, onde se pode conectar e desconectar sem qualquer compromisso, promovendo relações fantasiosas ou profundas protegidas pelo anonimato.

Ralph Waldo Emerson acertou ao afirmar que 'quando se é traído pela qualidade, tende-se a buscar desforra na quantidade'. Na compulsão de tentar novamente, e obcecado em evitar que a atual experiência sabote a futura, ou sempre em expectativa de que o melhor está por vir e que há sempre algo melhor pelo que esperar, as pessoas acabam desaprendendo o amor; tornam-se incapazes de amar. A sensação de que se pode ser abandonado, substituído a qualquer momento, impede a entrega total - e, porque não se entrega totalmente, o amante parcial vive com a constante sensação de que está vivendo um equívoco, ou que está esquecendo algo, deixando de experimentar alguma coisa.

Isso faz com que o amante parcial viva carregado de ansiedade. E, pior do que isso, está condenado a permanecer para sempre incompleto e irrealizado. Bauman diz, a respeito, que os que assim se encontram estão 'numa viagem que nunca termina; o itinerário é recomposto em cada estação, e o destino final é sempre desconhecido'.

A resposta cristã para essa 'sociedade líquida' que vive de 'amores líquidos' deve considerar, pelo menos, três fatos. Em primeiro lugar, lembre-se que o amor encontra seu significado não na posse das coisas prontas, completas e concluídas, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. Martinho Lutero nos adverte que 'o amor de Deus não se destina ao que vale a pena ser amado, mas cria o que vale a pena ser amado'. Em outras palavras - não espere pessoas prontas;
caminhe com elas rumo à maturidade. Lembre-se também que o amor não é um caminho de satisfação, mas de transformação e realização.

Hans Burky ensinou que 'mais da mesma coisa nos deixa no mesmo lugar'. Em outras palavras, quando seu relacionamento não estiver satisfatório, não mude o parceiro ou parceira: mude o relacionamento. Finalmente, lembre-se que o amor não é um episódio, mas uma caminhada comum. Ele não acontece na relação superficial, esporádica, virtual, meramente física, mas num relacionamento de proximidade que conduz à intimidade, em direção à profundidade do ser que ama. Em outras palavras, não confunda paixão e sexo com amor. A sociedade anticristã não vive da negação do que é cristão, mas da deturpação. Para deturpar, você priva, exacerba (exagera) ou distorce.

O amor líquido é uma falsificação do amor sólido. Isto é, para conspirar contra o amor, o diabo não precisa semear o ódio, que a maioria rejeita; basta semear o amor líquido. A sociedade líquida está iludida. Carece de gente que viva relacionamentos de 'amor sólido', para que conheça a verdade e seja liberta de sua ilusão.


Ed René Kivitz
é escritor conferencista
Texto recebido da amiga Célia - por e-mail

sexta-feira, 4 de abril de 2008

CASAMENTO

Aos que não casaram,
Aos que vão casar,
Aos que acabaram de casar,
Aos que pensam em se separar,
Aos que acabaram de se separar.
Aos que pensam em voltar...

Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja.
O AMOR É ÚNICO,
como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.

A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue,
A SEDUÇÃO
tem que ser ininterrupta...

Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança, acabamos por sepultar uma relação que poderia
SER ETERNA

Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas.
Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes, nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada,
RESPEITO.
Agressões zero.

Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência... Amor só, não basta. Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura, para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver
BOM HUMOR
para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.
Tem que saber levar.

Amar só é pouco.
Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas para pagar.
Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar.
Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem , visando à longevidade do matrimônio, tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um.
Tem que haver confiança. Certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão.
E que amar "solamente", não basta.

Entre homens e mulheres que acham que
O AMOR É SÓ POESIA,
tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.

O amor é grande, mas não são dois.
Tem que saber se aquele amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência.
O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

Um bom Amor aos que já têm!
Um bom encontro aos que procuram!
E felicidades a todos nós!

Artur da Távola

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O QUE SE VÊ NA TV - Revista E - SESC

..."Televisão, pública ou comercial, é concessão do Estado, para segundo a Constituição, promover valores da família e da sociedade. Isso não está acotecendo. O que a televisão faz é substituir os valores da família pelos valores da tribo confinada. E os valores da sociedade pelos valores prêt-a-porter. E o homem começa por aí, mais consumidor que cidadão." ...
..." Esse mundo do mercado que substitui a reflexão pelo espetáculo, o paladar pela gula, a vibração pela histeria, a paz pela violência, o gosto pela moda, o ser pelo possuir produziu em todas as camadas da sociedade desejos tão inatingíveis quanto inadequados: nas mais modestas barrancas de algum rio brasileiro, o pescador humilde, quando volta ao barraco com televisão, contempla iates, vinhos, comidas e Mercedes como se fossem os objetos do cotidiano. São os objetos do desejo, o elemento mais metafísico da globalização."...
Jorge da Cunha Lima - diretor presidente da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura)
..."O caminho é longo, mas o telespectador já começa a sentir a felicidade de levantar do sofá e dar os primeiros passos frente a esse aparelho que, até então, mais o narcotiza do que respeita..."...
Rachel Moreno - presidente da ONG TVER

"... e o que a gente sabe sobre o próximo? E sobre um próximo assim distante? "
"A solução era se deixar envenenar pela angústia existencial que tinha na época (?) um nome mais curto: dúvida. Duvidar do amor, da arte, de si mesmo - duvidar de tudo, menos da morte que só ela é certa no jardim das incertezas."

Lígia Fagundes Telles - do livro A Disciplina do Amor
"... é cultural toda experiência da qual saio diferente - e mais rico do que era antes. Seja qual for, um livro, um filme, uma exposição: estou no mundo da cultura quando isso não apenas me dá prazer (me entretém, me diverte), mas me abre a cabeça, ou para falar mais bonito, amplia meu mundo emocional, aumenta minha compreensão do mundo em que vivo e assim me torna mais livre para escolher meu destino."(...)

Renato Janine Ribeiro

DISCURSO DO MÉTODO I

... "O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costumam desejar tê-lo mais do que têm. E não é verossímil que todos se enganem a tal respeito; mas isso antes testemunha que o poder de bem julgar e disatingüir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se denomina bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens; e, destarte, que a diversidade de nossas opiniões não provém do fato de serem uns mais racionais do que outros, mas somente de conduzirmos nossos pensamentos por vias diversas e não considerarmos as mesmas coisas. Pois não é suficiente ter o espírito bom o principal é aplicá-lo bem."...

Descartes