quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Paranóia da Idade



Irrito-me com grossura. Não sei por que certas revistas colocam a idade de seus entrevistados. Fica um texto chulo. O que tem a ver a idade da criatura se não se trata de uma biografia, RG, CPF, título eleitoral, exames de laboratórios... Para que servirá? Para nada: apenas para fofoca. Ficamos parecidos com o vale quanto pesa.

Respeitar a privacidade dos outros é coisa do passado. A curiosidade, a insistência, a obsessão por algo particular, incomoda.

Parece que somos uma mercadoria: após o nome, vem a idade! Ao entrarmos nos 50 anos, nós, pobres mortais, sentimos um pouco de desconforto; é como se todo nosso potencial físico tivesse atingido o limite. Para uns, estamos bem conservados; para outros, despencando. Se estamos magros, estamos doentes; se estamos gordos, estamos com problemas emocionais. Ou na menopausa.

Como devemos estar aos 50, 60, 80 anos? Adolescentes? Cocotas?
Envelhecer, hoje, é um ato de bravura, é como ir para guerra e sobreviver, apesar dos percalços... Tornou-se um suplício, uma via-crucis para muitos.

O prático e gostoso é colocar frustrações e problemas em cima da carcaça alheia. Diante destas pessoas todos estamos uns cacos, babando.

Sobre idade, já escutei muitas pessoas dizerem a outras: ASSUMA!! Mas assumir o quê? Pra quem? Não temos nada pra assumir; não devemos satisfações a ninguém, salvo em certos casos que citei acima.

Vejam só como certas coisas irritam: quando se chega lá pelos 75 anos, muitos começam a ouvir tolices: que estão ficando gagás. Mas quando se chega perto dos 90 ou 100 anos aí o quadro é outro: como o fulano está lúcido, bem disposto...


Pô, eu não entendo isto, francamente.

Ouço pelos cantos deste Brasil que o arquiteto Niemayer - com mais de 100 anos - está ótimo, trabalhando; que a falecida Dercy Gonçalves - com 100 anos - tinha o vigor de uma criança; que Seu Mauricio, com 90 aninhos, está com todo o gás, acabou de fazer um filho com uma garota de 25!

PORÉM...
As fulanas, de 50 ou 60 anos, estão A-CA-BA-DAS.
Dá pra entender?

Então, o que acontece, é que nós, mulheres, estamos em franca transformação: estamos virando peruas de vanguarda! E os homens, em malhados rinocerontes. Não estamos num palco, ninguém nos olha tanto quanto imaginamos. Ninguém é o centro das atenções. Somos apenas uma partícula viva do Universo. E meio que perdidos na nossa essência. Voando por aí...

Podemos ser grandes, como podemos ser nada. E diante de tudo isso, de todo o mistério que nos rodeia, é pequeno demais nos preocuparmos com idade que não é nada mais do que fases da vida. Ser velho não é vergonha. São os únicos que poderão dizer: missão cumprida, vivemos plenamente.

É muita intromissão essa história de idade. E, como se não bastasse, após a perguntinha cretina, ainda dizem que a setentona tá uma gata! Também não vamos pro exagero...

Capacidade, conhecimento, amizade, amor e beleza encontramos nas pessoas, não em números.

Tais Luso de Carvalho Fonte: http://taisluso.blogspot.com/2010/06/paranoia-da-idade.html

sábado, 19 de junho de 2010

Na Ilha por Vezes Habitada


Na ilha por vezes habitada do que somos,
há noites, manhãs e madrugadas em que

não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado

definitivamente e entra em nós uma

grande serenidade, e dizem-se as palavras
que a significam.
Levantamos um punhado de terra
e
apertamo-la nas mãos. Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável:

o contorno, vontade e os limites.

Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se
reconhece e viajou à roda do mundo
infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde

acontecem milagres como a água, a pedra

e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.

Isso nos baste.


José Saramago

Palma com Palma



Palma com palma,
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras
São espelhos rigorosos da verdade
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade.

José Saramago